terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Doce e a fera

  Palavras, palavras, palavras.
  Brota espontânea de minha mente, direto para meus dedos. Praticamente impossível controlá-las, segurá-las, agora que acharam um meio de se extravasar.
  Às vezes sem sentido, às vezes sem noção. Apenas para serem libertas da mente e presas a um universo finito, e novamente represadas em outros universos finitos.
  Ao menos consigo dominar o que elas realmente querem dizer. Ainda consigo controlar o sentido, a direção. Isso já são uma vitória e um alívio. Também as desligo de seus desejos ansiosos, desvio-as de seu objetivo principal e com isso mantenho minhas mãos firmes no cabo, na guia, no domínio.
  Palavras traiçoeiras, que querem sabotar, solapar meus esforços. A vontade sobre a mente. A firmeza contra o desejo. A determinação contra o anseio. A imposição sobre os sentimentos. Mas ainda assim...
  Um feixe maleável e trêmulo de doçura entrega, carinho, amor, ainda bem que eu o tenho. Você é minha válvula de escape. Você é o que me impede de explodir e de me transformar num monstro, em máquina. Em vapor destrutivo e furioso. Na onda assoladora que sinto em mim. Você me pede para que eu seja eu mesma, você abre seu coração docemente para que eu seja o que eu gosto de ser, ainda que talvez não seja a realidade. Mas é tão deliciosamente repousante ser o que você precisa que eu seja.
  A Doce e a fera. Dois lados. Essa confusão pretende ser um agradecimento. Ainda que eu acredite que você não mereça ser honrado com minha gratidão, você sabe extrair isso de mim. Esse tesouro é seu.
  Agora agradeça e obedeça.

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